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Audiências públicas: como participar e ser ouvido

Comunidade · Tira o Pé da Minha Serra

A audiência pública é o único momento do licenciamento ambiental em que qualquer cidadão pode falar diretamente dentro do processo, sem intermediários. Foi nelas que a comunidade de Belo Horizonte e Nova Lima construiu parte da pressão contra o projeto da Serra do Curral. Saber como elas funcionam, como se preparar e como fazer a fala valer depois da reunião é habilidade cívica básica para quem vive em estado minerador.

O que a lei garante

Quando um empreendimento exige Estudo de Impacto Ambiental, a legislação prevê audiência pública sempre que solicitada ou quando o órgão ambiental a julgar necessária. O encontro deve ser convocado com antecedência, ter o RIMA, o relatório de impacto em linguagem acessível, disponível à população, e registrar todas as manifestações em ata. As contribuições entram no processo e precisam ser consideradas na análise técnica.

É importante calibrar a expectativa: a audiência não é plebiscito. O órgão ambiental pode licenciar mesmo contra a maioria das falas, desde que responda tecnicamente aos argumentos. O poder da audiência está em criar registro, em expor contradições e em produzir a prova pública de que a sociedade se manifestou, elemento que pesa depois, na imprensa e no Judiciário.

Como se preparar na prática

A regra número um é chegar lendo. O RIMA está disponível antes da reunião, e mesmo uma leitura seletiva, focada nos mapas, no cronograma e nas medidas mitigadoras, muda o nível da participação. A regra número dois é organizar a fala: grupos que distribuem perguntas por tema cobrem mais terreno do que dez manifestações repetindo o mesmo ponto.

A regra número três é protocolar por escrito. A fala na audiência é importante, mas o documento entregue e protocolado é o que permanece no processo e pode ser citado em ação judicial. Sempre que possível, entregue manifestação escrita, assinada, com número de protocolo registrado e fotografado.

Microfone sobre mesa de reunião vazia com placas de identificação em branco e copos de água
O microfone da audiência é neutro: vale para o empreendedor e para o morador. Quem chega preparado transforma minutos de fala em anos de registro.

O que perguntar numa audiência de mineração

TemaPergunta objetivaPor que importa
ÁguaQuais nascentes e adutoras ficam na área de influência?Segurança hídrica local
Barragens e baciasQual o método construtivo e o estudo de ruptura?Risco a jusante
Ar e ruídoOnde ficam as estações de monitoramento e quem acessa os dados?Verificação independente
TráfegoQuais vias receberão os caminhões e em que horários?Impacto urbano direto
FechamentoQuanto está provisionado para recuperação e quem garante?Evita passivo para o público

Erros que enfraquecem a participação

  • Chegar sem ler nada e apostar só na emoção: emoção legitima a presença, mas não segura argumento.
  • Transformar a reunião em palco: a confusão registrada em ata costuma beneficiar quem quer desqualificar a oposição.
  • Não protocolar nada por escrito: sem registro, a manifestação evapora.
  • Ignorar o prazo: contribuições fora do período formal perdem força processual.
  • Desistir depois da reunião: a condicionante se fiscaliza nos anos seguintes, não na noite da audiência.

O dia seguinte é o que conta

A experiência da Serra do Curral mostrou que a audiência é meio, não fim. Depois dela, a comunidade acompanhou o processo, cobrou respostas formais, acionou o Ministério Público e manteve a imprensa informada. O conjunto dessas ações, e não uma única noite histórica, construiu o resultado.

Em 2026, audiências públicas seguem acontecendo por todo o estado, muitas esvaziadas. Cada cadeira vazia é uma oportunidade perdida de registrar a voz do território. A lição que Belo Horizonte deixou é simples: quem comparece, pergunta e protocola não ganha sempre, mas quem não comparece entrega o jogo sem disputa.