A fauna ameaçada da serra: quem vive entre a cidade e a pedra
Três nomes bastam para medir a estatura ecológica da Serra do Curral: onça-parda, jaguatirica e lobo-guará. São predadores de médio e grande porte que ainda circulam pelo maciço encostado em Belo Horizonte, e a simples presença deles conta uma história rara: a de uma metrópole brasileira que divide o quintal com uma cadeia alimentar quase completa. Entender o que esses animais precisam para sobreviver é entender por que biólogos reagiram com tanta veemência ao projeto de mineração proposto para a serra.
Onça-parda: o fantasma de 40 quilos
A onça-parda, também chamada de suçuarana ou puma, é o segundo maior felino das Américas e o mais adaptável. Um macho adulto pode pesar mais de 40 quilos e patrulhar territórios de dezenas de quilômetros quadrados, alternando entre mata fechada e áreas abertas. Na Serra do Curral, os registros históricos e as aparições esporádicas relatadas por moradores do sopé indicam que o maciço funciona como refúgio ou como passagem entre áreas maiores do Quadrilátero Ferrífero e do Espinhaço.
O ponto crítico é o território. Uma onça-parda não vive num fragmento isolado de poucos hectares: ela precisa de corredores para caçar, cruzar e manter o fluxo genético. É por isso que a conexão com a Serra do Espinhaço, formalizada pelo decreto municipal de junho de 2022, tem valor biológico direto para a espécie, e não apenas valor simbólico.
Jaguatirica: a sentinela da mata bem conservada
Menor e mais arborícola que a parda, a jaguatirica pesa entre 8 e 15 quilos e caça de noite, do chão da floresta às copas. A pelagem pintada, que a tornou alvo histórico do comércio de peles, hoje é protegida por lei, e a espécie consta em listas de fauna ameaçada justamente por depender de floresta em bom estado. Onde há jaguatirica, há presas, há cobertura e há água: é um bioindicador dos mais confiáveis.
Os fragmentos de Mata Atlântica nos vales da serra, úmidos e fechados, são o habitat típico da espécie. A degradação desses vales por corte, fogo ou invasão de espécies exóticas empurra a jaguatirica para áreas marginais, onde o atropelamento e o conflito com cães domésticos cobram seu preço.

Lobo-guará: o gigante das áreas abertas
Maior canídeo da América do Sul, o lobo-guará impressiona pelo porte: pernas compridas, pelagem avermelhada e até 80 centímetros de altura na cernelha. Diferentemente dos felinos, ele é animal de campo e cerrado, onívoro, com dieta em que o lobo-da-terra e as frutas, como a lobeira, têm papel central. Sua presença indica campos preservados e roedores em abundância.
O lobo-guará é também o mais vulnerável dos três a mudanças no uso do solo. Queimadas, conversão de campos em canteiros de obra e estradas de tráfego pesado fragmentam exatamente o tipo de paisagem de que ele depende. Estudos de monitoramento em Minas mostram que atropelamentos e doenças transmitidas por cães estão entre as principais causas de mortalidade da espécie em áreas periurbanas.
Três espécies, três exigências
| Espécie | Habitat principal | Principal ameaça local |
|---|---|---|
| Onça-parda | Mata e campo, grandes territórios | Perda de corredores e de presas |
| Jaguatirica | Fragmentos de Mata Atlântica | Degradação dos vales e atropelamento |
| Lobo-guará | Campo rupestre e cerrado aberto | Queimadas, estradas e doenças de cães |
O que o ruído e a poeira fazem com a fauna
- Detonações em turnos contínuos afastam predadores das áreas de caça e interrompem ritmos de reprodução.
- Poeira depositada sobre a vegetação reduz presas de base, de insetos a pequenos roedores, e o efeito sobe pela cadeia.
- Estradas de transporte pesado viram barreiras de movimento e pontos de atropelamento.
- Iluminação industrial altera o comportamento de espécies noturnas, exatamente as mais discretas e difíceis de monitorar.
- A presença humana intensa facilita a entrada de cães domésticos na mata, vetores de doenças como a cinomose para os canídeos silvestres.
Quase 40 ameaçadas: o número por trás do slogan
Durante a campanha de 2021, os levantamentos apresentados apontavam quase 40 espécies de animais e plantas ameaçadas de extinção no conjunto do maciço, somando mamíferos, aves, bromélias, orquídeas e plantas medicinais. O número virou argumento de rua, mas tem lastro técnico: a sobreposição de três biomas numa área pequena concentra espécies de listas estaduais e nacionais de fauna e flora ameaçadas.
Em 2026, o cenário é de trégua vigiada. As licenças do empreendimento seguem suspensas por decisão judicial, o corredor ecológico está decretado e o monitoramento comunitário ganhou força. Mas fauna não assina acordo: ela responde apenas ao habitat. Enquanto houver mata conectada, água limpa e silêncio na crista, onças, jaguatiricas e lobos continuarão fazendo da Serra do Curral o que ela sempre foi, uma das últimas fronteiras selvagens dentro de uma capital brasileira.