De onde vem a água de Belo Horizonte
Poucos belo-horizontinos sabem responder de imediato: de onde vem a água que sai da torneira? A resposta envolve rios que nascem no Quadrilátero Ferrífero, estações de tratamento, quilômetros de adutoras e uma dependência histórica do Rio das Velhas, o mesmo rio que drena a região mais minerada do estado. Entender esse sistema é entender por que qualquer empreendimento próximo às áreas de captação vira assunto de segurança pública.
Um sistema metropolitano, duas fontes principais
O abastecimento da região metropolitana de Belo Horizonte, operado pela Copasa, apoia-se principalmente em dois sistemas produtores: o do Rio das Velhas, que capta no rio homônimo e responde pela maior parcela do volume, e o do Rio Manso, na bacia do Paraopeba, que reforça o atendimento da porção oeste da metrópole. A água bruta passa por estações de tratamento e segue por adutoras de grande diâmetro até os reservatórios de distribuição dos bairros.
Esse desenho resolve o presente, mas concentra o risco: a maior parte da água de milhões de pessoas depende de um único rio que atravessa o coração do Quadrilátero Ferrífero, região com séculos de mineração, dezenas de barragens e pressão constante por novos projetos. Segurança hídrica, nesse contexto, é sinônimo de vigilância sobre o que acontece montante acima.
A adutora que virou símbolo da disputa
Foi nesse ponto que a campanha de 2021 acendeu seu alerta mais grave. Segundo os materiais divulgados pela mobilização Tira o Pé da Minha Serra, o projeto de mineração previa três bacias de sedimento sobre a adutora responsável por cerca de 70% da água de Belo Horizonte. A imagem era poderosa porque era literal: estruturas de contenção de sedimento construídas acima da tubulação que mantém a capital funcionando.
Adutoras são obras sensíveis: operam sob pressão, atravessam terrenos variados e exigem faixas de domínio livres de sobrecarga e vibração. Sobrepor a elas estruturas de contenção de uma mina significava somar dois riscos de baixa frequência e consequência altíssima, exatamente o tipo de combinação que Mariana e Brumadinho ensinaram a não subestimar.

Do rio à torneira: o caminho da água
| Etapa | Onde acontece | Ponto de atenção |
|---|---|---|
| Captação | Rio das Velhas e Rio Manso | Qualidade da água bruta, vazão mínima |
| Tratamento | Estações da Copasa | Capacidade diante de turbidez extrema |
| Adutora | Travessias entre bacias e serras | Faixa de domínio livre de obras e vibração |
| Reservação | Reservatórios nos bairros | Nível estratégico para períodos de estiagem |
| Distribuição | Rede urbana | Perdas, pressão e manutenção |
O que ameaça o abastecimento, na prática
- Degradação das nascentes e margens do Rio das Velhas, com assoreamento e poluição por esgoto não tratado.
- Empreendimentos de mineração próximos às áreas de captação e às faixas das adutoras.
- Eventos climáticos extremos, com secas longas que reduzem vazões e chuvas concentradas que elevam a turbidez.
- Crescimento da demanda metropolitana sem expansão equivalente de fontes alternativas.
- Interdependência entre bacia hidrográfica e atividade minerária no mesmo território.
Por que a defesa da serra é defesa da água
A Serra do Curral entra nessa equação por três vias: abriga nascentes de córregos que drenam a cidade, concentra vegetação que retém e filtra a água da chuva, e foi o palco escolhido para um projeto que ameaçava, segundo a campanha, a principal artéria hídrica da capital. A suspensão judicial das licenças do empreendimento, confirmada nos tribunais até 2024, manteve a adutora fora da zona de risco mineiro.
Em 2026, a lição permanece atual: abastecimento de metrópole não é assunto só da concessionária. É decisão de uso do solo, de licenciamento ambiental e de proteção de cabeceiras. Quem defende a água de Belo Horizonte defende, necessariamente, as serras que a cercam.