Rio das Velhas e o projeto Manuelzão: a bacia que sustenta a região
O Rio das Velhas nasce nas serras do Quadrilátero Ferrífero, em Ouro Preto, e percorre pouco menos de 800 quilômetros até desaguar no Rio São Francisco, em Pirapora. No meio do caminho, atravessa a região mais populosa e mais minerada de Minas Gerais, recebe o esgoto de milhões de pessoas e, ainda assim, é o rio que abastece a maior parte da região metropolitana de Belo Horizonte. É sobre esse rio contraditório que se construiu um dos mais longevos programas de recuperação fluvial do país: o Projeto Manuelzão.
O rio que sustenta a metrópole que o adoece
A bacia do Rio das Velhas abriga dezenas de municípios e mais de três milhões de pessoas, concentrando capital, indústria e agronegócio no mesmo espelho d'água. O resultado é um rio de duas faces: fonte principal de água bruta para o sistema metropolitano e receptor histórico de cargas de esgoto doméstico, efluentes industriais e sedimentos de áreas degradadas. Em trechos urbanos de Sabará e da capital, o rio já chegou a figurar entre os mais poluídos do estado.
A ironia hidrológica é conhecida dos técnicos: Belo Horizonte bebe, a jusante, a água que a própria região metropolitana devolve degradada. Cada município que avança no tratamento de esgoto melhora a água do vizinho de baixo, numa cadeia de solidariedade obrigatória que a geografia impõe e a política nem sempre honra.
Manuelzão: a utopia organizada da UFMG
Criado em 1997 por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais, o Projeto Manuelzão nasceu com uma meta que parecia impossível: devolver ao Rio das Velhas condições de vida aquática e de uso público, inicialmente projetadas para 2015 e depois reajustadas diante da realidade do saneamento mineiro. O método combinou diagnóstico científico contínuo, pactuação com prefeituras e uma articulação inédita entre universidade, comitê de bacia e sociedade.
Quase três décadas depois, o balanço é misto e honesto. O rio melhorou em trechos onde o tratamento de esgoto avançou, a consciência pública sobre a bacia cresceu, e o comitê de bacia do Rio das Velhas consolidou-se como fórum de decisão. Mas a meta de um rio vivo ao longo de todo o curso segue aberta, refém do déficit de saneamento que o próprio estado reconhece.

O que o Manuelzão ensinou sobre recuperar rios
| Frente | Instrumento | Resultado esperado |
|---|---|---|
| Saneamento | Estações de tratamento de esgoto nos municípios | Corte da carga orgânica na fonte |
| Mata ciliar | Reflorestamento de margens e nascentes | Filtro de sedimentos e corredor ecológico |
| Monitoramento | Rede de pontos de coleta e análise | Diagnóstico contínuo e cobrança baseada em dados |
| Pactuação | Comitê de bacia e acordos municipais | Decisões compartilhadas entre cidades da bacia |
Por que a serra entra na conta do rio
A bacia do Rio das Velhas começa exatamente onde a mineração quer atuar: nas cabeceiras serranas do Quadrilátero Ferrífero. Projetos como o da Serra do Curral preocupam não apenas pelo impacto local, mas pelo efeito de cabeceira: sedimentos, alteração de vazões e risco de contenções sobre afluentes que alimentam o sistema. A defesa das serras e a defesa do rio são, hidrologicamente, a mesma luta.
- Cabeceiras preservadas garantem vazão de base na estiagem, quando o rio mais precisa.
- Sedimento de cava e de estrada assoreia o leito e encarece o tratamento da água bruta.
- Estruturas de contenção mal localizadas colocam em risco trechos inteiros a jusante.
- Cada córrego urbano recuperado, como os que nascem na Serra do Curral, alivia a carga do rio principal.
2026: o rio ainda espera o saneamento
O novo marco do saneamento, que exige universalização da coleta e do tratamento de esgoto até 2033, recolocou o Rio das Velhas no centro do planejamento estadual. Se as metas forem cumpridas, o sonho de 1997 pode finalmente ganhar data; se forem adiadas, o rio continuará sendo o retrato mais fiel da dívida ambiental de Minas Gerais.
A lição do Manuelzão é que rio não se recupera com decreto, se recupera com década. E que nenhuma metrópole bebe tranquilamente de um rio doente: mais cedo ou mais tarde, a conta chega na torneira, no preço do tratamento ou na falta d'água. Cuidar do Velhas é cuidar do próprio abastecimento, e cuidar das serras que o alimentam é o primeiro passo.