Segurança hídrica da região metropolitana de BH em 2026
A região metropolitana de Belo Horizonte já viveu, em 2020 e 2021, rodízio de abastecimento em dezenas de bairros: os sistemas da Copasa operaram no limite depois de anos de chuva abaixo da média na bacia do Rio das Velhas. O episódio foi um ensaio do futuro. Com demanda crescente, clima mais irregular e pressão por novos empreendimentos sobre as áreas de recarga, a segurança hídrica da metrópole virou pauta permanente, e não assunto de ano de seca.
O que é segurança hídrica, além do slogan
Segurança hídrica é a capacidade de garantir água em quantidade e qualidade para a população, a economia e os ecossistemas, hoje e no futuro, mesmo diante de choques como secas prolongadas e contaminações. Ela não se mede só no volume dos rios, mas na combinação de fontes diversificadas, redes bem mantidas, tratamento eficiente, governança de bacia e, acima de tudo, proteção das áreas de recarga onde a água nasce.
Para a RMBH, a equação é concentrada: mais de cinco milhões de pessoas dependem majoritariamente do sistema do Rio das Velhas, com complemento do Rio Manso. Quando a bacia sofre, a metrópole inteira sente, como ficou claro no rodízio de 2021, que atingiu bairros da capital e de municípios do entorno durante meses.
Os quatro pilares do risco metropolitano
O primeiro é climático: os anos de 2013 a 2016 e o ciclo 2019–2021 mostraram sequências de estiagem que rebaixaram vazões a níveis críticos, e as projeções para o Sudeste apontam eventos extremos mais frequentes. O segundo é de demanda: a metrópole cresce e a oferta nova de água é lenta e cara. O terceiro é de qualidade: esgoto não tratado e sedimentos encarecem e limitam o uso do rio. O quarto é de uso do solo: o que acontece nas serras e cabeceiras decide quanto sobra no fundo do copo.
É nesse quarto pilar que entra a disputa da Serra do Curral. Um complexo minerário sobre áreas de recarga e sobre a adutora que abastece a maior parte da capital adicionava, à equação já apertada, um risco evitável de interrupção e de contaminação. A oposição da sociedade, sustentada tecnicamente e confirmada depois pelas decisões judiciais, foi também um episódio de gestão de segurança hídrica.

Os instrumentos que já existem
| Instrumento | Quem executa | Função na segurança hídrica |
|---|---|---|
| Plano de bacia do Rio das Velhas | Comitê de bacia e Igam | Planejar usos e metas de qualidade |
| Cobrança pelo uso da água | Igam e ANA | Financiar recuperação e dar preço ao recurso |
| Outorga de uso | Igam | Controlar captações e conflitos de uso |
| Plano de contingência da Copasa | Copasa | Rodízio e operação emergencial em secas |
| Proteção de APPs e nascentes | Municípios e estado | Preservar a produção de água na fonte |
O que ainda falta fazer
- Universalizar o tratamento de esgoto na bacia até 2033, conforme o marco legal do saneamento, sem adiamentos.
- Reduzir perdas na distribuição, que desperdiçam água já captada e tratada.
- Diversificar fontes, incluindo reuso de água para fins não potáveis na indústria e na irrigação urbana.
- Integrar mapas de recarga e nascentes aos planos diretores, travando ocupações incompatíveis nas áreas críticas.
- Recusar empreendimentos de risco sobre adutoras e zonas de captação, como a sociedade fez no caso da Serra do Curral.
A lição permanente do rodízio
O rodízio de 2021 deixou um aprendizado desconfortável: a escassez não é um acidente, é o resultado acumulado de escolhas. Cada córrego canalizado sem critério, cada nascente aterrada, cada licença concedida sem olhar a bacia inteira é uma parcela de risco que a torneira cobra depois. A reversão é igualmente acumulativa: cada hectare de serra preservada rende água por décadas.
Em 2026, a metrópole convive com um clima mais instável e com a memória fresca do racionamento. A defesa da segurança hídrica passa, inevitavelmente, pela defesa das serras que produzem a água. Não é romantismo ambiental: é engenharia de suprimento com a lógica mais antiga do mundo, a de não destruir a fonte que sustenta a própria sede.