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Descomissionamento: como se aposenta uma barragem com segurança

Mineração · Tira o Pé da Minha Serra

Brumadinho mudou a engenharia de barragens no Brasil por uma razão brutal: a barragem do Córrego do Feijão tinha declaração de estabilidade assinada e, mesmo assim, colapsou em segundos em 25 de janeiro de 2019. A resposta institucional veio em semanas: a Lei 23.291, de fevereiro de 2019, criou a Política Estadual de Barragens de Mineração em Minas Gerais e colocou no vocabulário público uma palavra nova, descomissionamento. Sete anos depois, vale medir o que mudou de fato.

O que é descomissionar uma barragem

Descomissionar, ou descaracterizar, uma barragem de rejeito é reintegrá-la ao ambiente de modo que ela deixe de existir como estrutura de contenção. Na prática, envolve drenar o rejeito, recompactar ou remover o material, remodelar taludes, revestir com solo e revegetar, de forma que não haja mais lagoa, estrutura hidráulica ou possibilidade de escoamento. O objetivo é eliminar o modo de falha, não apenas reduzi-lo.

A lei mineira de 2019 proibiu a construção e o alteamento de barragens pelo método a montante e determinou o descomissionamento de todas as existentes, com prazos que depois foram revistos em 2021 diante da complexidade técnica e da capacidade financeira das empresas. A ANM, por sua vez, endureceu as exigências de monitoramento e de planos de ação de emergência, os PAEBM, para as estruturas que permanecem ativas.

O que já foi feito e o que ainda falta

A Vale, dona da maioria das estruturas críticas do estado, concluiu a descaracterização de parte das suas barragens a montante, incluindo estruturas no complexo de Paraopeba e outras unidades do Quadrilátero Ferrífero. Outras seguem em obras de drenagem e remanejamento, em cronogramas fiscalizados pela ANM e pelo Ministério Público de Minas Gerais, que mantém ações e acordos específicos sobre o tema desde Brumadinho.

A conta ainda não fecha. Descomissionar uma barragem grande é obra de anos, com volumes de rejeito na casa dos milhões de metros cúbicos a serem drenados e realocados. Enquanto o processo não termina, a estrutura continua exigindo vigilância, e a população a jusante convive com sirenes, simulados de evacuação e a ansiedade documentada por pesquisas de saúde mental em cidades como Barão de Cocais e Itatiaiuçu.

Instrumento de monitoramento geotécnico instalado em talude gramado de barragem
Piezômetros e marcos de deslocamento medem a saúde de uma barragem em tempo real: monitoramento contínuo é exigência da era pós-Brumadinho.

Antes e depois de Brumadinho

AspectoAntes de 2019Depois da Lei 23.291
Método a montantePermitido e amplamente usadoProibido; existentes em descaracterização
EmergênciaPlanos pouco padronizadosPAEBM obrigatório, sirenes e simulados
FiscalizaçãoDeclarações de estabilidade com pouca checagemAuditorias, ANM reforçada e MPMG permanente
Tecnologia de disposiçãoPredomínio de barragensExpansão do empilhamento a seco

O que perguntar sobre qualquer estrutura próxima

  • A barragem consta no cadastro da Fundação Estadual do Meio Ambiente e da ANM, com classificação de risco e de dano potencial associado.
  • Existe plano de ação de emergência atualizado, com mapa da zona de autossalvamento disponível à população.
  • As declarações de estabilidade estão em dia, e houve auditoria independente recente.
  • Se a estrutura é a montante, em que pé está o cronograma de descaracterização e quem fiscaliza.
  • A comunidade a jusante participou de simulado de evacuação nos últimos doze meses.

A conta que Belo Horizonte não quis abrir

Todo esse arcabouço explica a reação visceral da capital mineira ao projeto da Tamisa na Serra do Curral. Três bacias de sedimento sobre a adutora que abastece a maior parte da cidade significavam, na leitura de técnicos e moradores, a criação de novas estruturas de contenção no lugar errado, sob a lógica que Brumadinho havia enterrado. A suspensão judicial das licenças impediu que a discussão saísse do papel.

Em 2026, o descomissionamento segue como uma das maiores obras de engenharia em curso no país, e como lembrete permanente: barragem de rejeito não é um problema que se gerencia com otimismo, é um problema que se elimina com engenharia e dinheiro. Para uma metrópole como Belo Horizonte, a conclusão prática é ainda mais simples: certas estruturas não devem nascer perto de onde as pessoas vivem e bebem água.