A história da mineração na Serra do Curral: da Ferrobel ao parque
Muito antes de a campanha Tira o Pé da Minha Serra ocupar as redes em 2021, a Serra do Curral já era território de mineração. Entre os anos 1960 e o início dos 2000, o maciço abrigou operações de empresas como Ferrobel e Vale, viu sua linha do horizonte rebaixada por uma ferrovia e transformou-se, depois, no maior caso de recuperação de área minerada da capital. Essa história importa porque explica tanto as cicatrizes quanto a capacidade de regeneração da serra.
Ferrobel: a mineradora da própria prefeitura
A história industrial do maciço começa com um arranjo curioso: a Lei Municipal 898, de outubro de 1961, autorizou a criação da Ferro de Belo Horizonte S.A., a Ferrobel, sociedade de economia mista com participação da prefeitura. A ideia era aproveitar o minério de ferro que aflorava no limite sul da cidade e gerar receita para o município. Ao longo dos anos 1960 e 1970, a empresa explorou lavras na serra até encerrar as atividades em 1980.
O fechamento da Ferrobel abriu caminho para o gesto mais emblemático de reconciliação da cidade com o maciço: o reflorestamento integral da área minerada e a inauguração, em 1982, do Parque das Mangabeiras, hoje uma das maiores áreas verdes urbanas de Minas Gerais. Onde havia cava e estéril, cresceu mata que abriga nascentes e recebe famílias inteiras nos fins de semana.
Águas Claras: a gigante de 14 milhões de toneladas
Nos primeiros anos dos anos 1970, a então Companhia Vale do Rio Doce instalou a Mina de Águas Claras na divisa entre Belo Horizonte e Nova Lima. A operação chegou a retirar, em média, 14 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, ritmo mantido até a desativação, em 2002. Empabra e MBR também operaram no maciço no fim dos anos 1970, completando o mapa de uma serra intensamente cavada.
O impacto mais duradouro daquela era não foi uma cava, mas uma ferrovia. Em 1973, a linha construída para ligar Águas Claras a Ibirité exigiu um corte que rebaixou em cerca de 100 metros a linha do horizonte na região dos bairros Mangabeiras e Serra. A denúncia ambiental registrada à época é considerada a primeira do gênero na história da serra, antecedendo em décadas os movimentos que viriam.

O que cada ciclo deixou
| Empreendimento | Período | Legado |
|---|---|---|
| Ferrobel | Anos 1960–1980 | Lavras encerradas e área reflorestada; origem do Parque das Mangabeiras |
| Mina de Águas Claras (Vale) | Anos 1970–2002 | ≈ 14 Mt/ano de minério; cavas e infraestrutura desativada |
| Empabra e MBR | Fim dos anos 1970 | Exploração complementar no maciço |
| Ferrovia para Ibirité | 1973 | Rebaixamento de ≈ 100 m da linha do horizonte |
| Parque das Mangabeiras | Desde 1982 | Recuperação ambiental e uso público consolidado |
Por que a memória mineira importa no debate atual
Quando a Tamisa propôs, a partir de 2018, um novo complexo minerário de mais de 100 hectares na serra, a cidade não discutia no vazio. Discutia com a memória de quem já viu a paisagem ser rebaixada por uma ferrovia, os córregos do Taquaril afetados pelo escoamento de resíduos e a crista transformada em cicatriz. Ao mesmo tempo, discutia com a prova concreta de que recuperação é possível, porque o Parque das Mangabeiras estava ali, verde, diante de todos.
- A serra já foi minerada em escala industrial durante quatro décadas, e seus impactos ainda são legíveis na paisagem.
- A recuperação da área da Ferrobel levou anos de reflorestamento planejado, e não brotou espontaneamente.
- Cada ciclo de mineração foi apresentado à época como progresso, e cada um deixou custos que a cidade absorveu por gerações.
- A experiência acumulada explica a sofisticação da resposta de 2021: técnicos, dados históricos e memória viva.
O fim de um ciclo, não da vigilância
A desativação de Águas Claras em 2002 encerrou a era das grandes lavras no maciço, e os vinte anos seguintes consolidaram a serra como parque, patrimônio e corredor ecológico. A tentativa de reabrir esse capítulo em 2018 encontrou uma cidade diferente: mais informada, com marcos de proteção como o tombamento federal de 1960 e, depois de 2022, com o corredor ecológico decretado.
A história da mineração na Serra do Curral é, no fundo, a história de Belo Horizonte aprendendo o preço do próprio horizonte. Foi preciso perder pedaços dele para entender que não era paisagem descartável. Em 2026, com as licenças do último projeto suspensas pela Justiça, a lição está escrita na própria crista: o que se tira da serra não volta; o que se protege nela rende para sempre.