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O tombamento de 1960: a Serra do Curral como paisagem protegida

Patrimônio · Tira o Pé da Minha Serra

Em setembro de 1960, quando Belo Horizonte tinha pouco mais de 60 anos e ainda não se estendia pela zona sul, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional inscreveu no Livro Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico o conjunto paisagístico da Serra do Curral. Foi um gesto raro para a época: tombar não um monumento, mas uma paisagem. Sessenta e dois anos depois, esse registro empoeirado entraria nos autos judiciais e ajudaria a mudar o destino do maciço.

O Brasil de 1960 e uma ideia à frente do tempo

O Iphan dos anos 1960 vivia a era dos grandes registros de cidades históricas e monumentos coloniais. Tombar uma serra encostada numa capital planejada era, para os padrões da época, uma ousadia conceitual: reconhecia que a linha do horizonte desenhada pelo maciço era parte da identidade urbana de Belo Horizonte, tão patrimonial quanto um casarão. O registro protegeu a parte mais nobre da serra, a região onde hoje ficam a Praça Israel Pinheiro e os bairros do alto da zona sul.

A proteção tinha um alvo claro: a especulação e a extração. A serra já era cortada por pedreiras e começava a atrair a mineração de ferro em escala, com a Ferrobel, criada pela prefeitura em 1961, e depois com a Mina de Águas Claras, da Vale, nos anos 1970. O tombamento não impediu esses ciclos, mas fincou um marco jurídico que o tempo se encarregaria de valorizar.

O que o registro protege, na prática

O tombamento paisagístico de 1960 submete intervenções na área delimitada à anuência prévia do Iphan. Na prática, qualquer empreendimento que possa alterar o conjunto paisagístico, seja uma torre alta, uma estrada ou uma mina, precisa ser analisado pelo instituto federal. O instrumento é o mesmo que protege conjuntos como o de Ouro Preto e a Pampulha, aplicado a uma paisagem natural que também é cultural, porque moldou e continua moldando a cidade.

Durante décadas, o registro funcionou como freio silencioso: nem sempre invocado, mas sempre presente. Imobiliárias que desrespeitaram os limites de gabarito na linha do horizonte foram condenadas a indenizar a União, em processos conduzidos pelo Ministério Público Federal em articulação com o Iphan, criando jurisprudência concreta sobre o valor da proteção.

Câmera fotográfica antiga em tripé de madeira apontada para a serra ao pôr do sol
A linha do horizonte tombada em 1960 é a mesma que os belo-horizontinos fotografam até hoje: patrimônio que se mede em paisagem, não em metros.

Linha do tempo da proteção federal

AnoMarcoSignificado
1937Criação do Iphan e do instituto do tombamentoBase legal da proteção de paisagens no Brasil
1960Tombamento do conjunto paisagístico da serraProteção federal da linha do horizonte
Anos 1990–2000Ações contra construções irregularesIndenizações por desrespeito ao tombamento
2021–2022Iphan retira aval ao projeto de mineraçãoTombamento reativado contra o licenciamento
2024STF mantém suspensão das licençasProteção federal confirmada no Judiciário

Quando o papel virou trincheira

O projeto da Tamisa, apresentado a partir de 2018, encontrou no tombamento de 1960 um obstáculo que os estudos de impacto não conseguiram contornar. Ao detectar que a área do empreendimento incidia sobre bem tombado pela União, o Iphan retirou o aval que havia concedido em etapa anterior do licenciamento, e a Justiça Federal passou a exigir a anuência do instituto e do Ibama para qualquer avanço. A suspensão das licenças acabou confirmada pelo STF.

  • O tombamento de 1960 demonstra a importância de registros antigos: proteção dormindo não é proteção morta.
  • A atuação do Iphan mostrou que órgãos de patrimônio podem rever aval quando novos fatos emergem.
  • A combinação de patrimônio e Judiciário provou ser o caminho mais eficaz quando o licenciamento avança rápido demais.

Uma paisagem que paga seu próprio tombamento

Em 2026, o registro de 1960 segue ativo e, mais do que isso, segue produtivo. A linha do horizonte protegida sustenta o valor simbólico de Belo Horizonte, sua indústria de turismo de mirantes e a própria qualidade de vida dos bairros do sopé. Estudos de valorização imobiliária em cidades de serra mostram que vista protegida é ativo econômico permanente, enquanto cava minerada é receita que se esgota.

A história do tombamento da Serra do Curral ensina que patrimônio é investimento de longo prazo. Quem registrou a paisagem em 1960 não sabia que estava escrevendo a cláusula que salvaria a serra seis décadas depois. Mas estava. É por isso que processos de tombamento, por mais técnicos e lentos que pareçam, merecem a atenção de qualquer comunidade que ame seu território.