Tira o Pé da Minha SerraGeologia de bilhões de anos, nascentes que abastecem a cidad

72 mil assinaturas: a anatomia de um abaixo-assinado que funcionou

A Campanha · Tira o Pé da Minha Serra

Em 24 de agosto de 2021, a vereadora Duda Salabert recebia em Belo Horizonte um abaixo-assinado com mais de 72 mil assinaturas pedindo o tombamento integral da Serra do Curral. O documento, noticiado pela imprensa estadual, foi o momento em que a defesa da serra deixou de ser causa de especialistas e virou causa de massa. Vale reconstruir como a petição nasceu, o que ela mudou e o que ela ensina sobre pressão cidadã.

Como 72 mil nomes viraram uma notícia que ninguém ignorava

A petição circulou durante meses de 2021, impulsionada pela campanha Tira o Pé da Minha Serra e por redes de moradores da zona sul e do Taquaril. O pedido era objetivo: tombar toda a área da serra para barrar os projetos de mineração que ainda ameaçavam o maciço. A entrega formal à vereadora, com registro fotográfico e cobertura dos jornais, transformou uma coleta digital em ato político.

O número tinha força própria. Setenta e dois mil assinaturas representavam mais do que muitas votações de vereador em Belo Horizonte, e sinalizavam aos conselheiros do Copam e do Conep que a pauta tinha custo político real. Não era mais possível tratar o licenciamento como rotina técnica: havia uma cidade inteira olhando.

O efeito imediato e o efeito retardado

No curto prazo, a petição não impediu a aprovação da licença prévia pelo Copam, em abril de 2022. Mas seus efeitos operaram em outras frentes. O tombamento entrou definitivamente na agenda da Câmara Municipal e da prefeitura, que meses depois assinaria o Decreto 17.986 criando o corredor ecológico da serra. E a mobilização de massa deu lastro político às ações judiciais que, nos anos seguintes, suspenderam as licenças da Tamisa.

Esse padrão é conhecido dos estudiosos de movimentos sociais: petições raramente vencem a batalha que declaram, mas mudam o terreno das batalhas seguintes. No caso da serra, as 72 mil assinaturas não tombaram o maciço por si sós, mas tornaram politicamente inevitável que alguém, em alguma esfera, fizesse alguma coisa. E fizeram.

Caixa de madeira para sugestões com papéis em branco ao lado sobre mesa
Petição é a forma mais antiga de participação direta: papel, nome e um pedido objetivo que o poder público não consegue fingir que não viu.

Petição, audiência e ação judicial: o que cada instrumento faz

InstrumentoForçaLimite
Abaixo-assinadoDemonstra apoio de massa e pauta a imprensaNão obriga decisão
Audiência públicaInscreve críticas no processo de licenciamentoManifestações podem ser formalmente respondidas e superadas
Ação judicialSuspende e anula atos ilegaisLenta e dependente de prova técnica
Decreto e leiCria proteção permanenteExige maioria política conjuntural

O que uma boa petição precisa ter

  • Pedido único e exequível: tombar a serra era uma ação concreta, não um apelo genérico por natureza.
  • Entrega ritualizada: protocolo formal, com data, registro e destinatário identificado.
  • Imprensa avisada: o número só vira pressão quando vira notícia.
  • Continuidade: a assinatura é a porta de entrada para audiências, dossiês e ações, não o fim da participação.
  • Lastro técnico: o pedido da petição se apoiava no dossiê do Iepha, não apenas na emoção.

As assinaturas que seguem valendo

Em 2026, a petição de 2021 é lembrada como o instante em que Belo Horizonte se reconheceu maioria. Muita gente que assinou nunca foi a uma audiência, mas descobriu, com o tempo, que sua assinatura foi o primeiro elo de uma corrente que chegou ao STF.

A lição prática para qualquer causa territorial é a mesma que a campanha deixou: conte as pessoas, formalize o pedido, registre a entrega e mantenha a lista viva. Números organizados não decidem sozinhos, mas nenhum decisor, em Minas ou fora dela, gosta de descobrir que está contra 72 mil eleitores documentados.