Tira o Pé da Minha SerraGeologia de bilhões de anos, nascentes que abastecem a cidad

O projeto da Tamisa na Taquaril: o que se propunha

A Campanha · Tira o Pé da Minha Serra

Por trás da sigla Tamisa estava a Taquaril Mineração S.A., empresa que entre 2018 e 2022 tentou licenciar um complexo de mineração na Serra do Curral e acabou protagonizando a maior disputa ambiental da história recente de Belo Horizonte. Entender o que a empresa propunha, como o projeto era desenhado e por que ele fracassou é essencial para avaliar qualquer proposta semelhante que apareça no futuro.

A empresa e o território escolhido

A Tamisa já atuava na região do Taquaril, na zona leste de Belo Horizonte, e mirava uma área de mais de 100 hectares na porção da Serra do Curral que pertence a Nova Lima, colada ao limite com a capital. A escolha do terreno explicava-se pela geologia: o maciço guarda itabiritos e hematitas de interesse econômico, os mesmos que sustentaram décadas de mineração histórica na serra, de Ferrobel a Águas Claras.

O problema era o entorno. A área pretendida ficava a poucos quilômetros de bairros densamente ocupados, sobre nascentes e corredores de mata, na crista tombada federalmente desde 1960 e, segundo a campanha de oposição, sobre a adutora que abastecia cerca de 70% de Belo Horizonte. Era difícil imaginar, na região metropolitana, um ponto com mais camadas de sensibilidade acumuladas.

O desenho do empreendimento

Pelo que foi divulgado no processo de licenciamento e na campanha, o projeto previa extração a céu aberto com operação em três turnos, britagem no local, transporte por caminhões e um sistema de bacias de sedimento para controlar a água de drenagem. O empreendimento foi classificado como nível 6 de impacto ambiental, o máximo da escala estadual, o que impôs a elaboração de EIA/RIMA e colocou a decisão final nas mãos do Copam.

A empresa argumentava com os benefícios tributários e de emprego para Nova Lima e com o histórico minerário do próprio maciço. Os opositores respondiam com a conta que o projeto não fazia: o custo de operar sobre a água da capital, sobre um patrimônio tombado e sobre a paisagem símbolo de uma metrópole de milhões de pessoas.

Caixas de madeira com testemunhos cilíndricos de sondagem de rocha organizados em fileiras
Testemunhos de sondagem revelam o teor do subsolo: foi a riqueza geológica do maciço que atraiu o projeto, e a mesma que selou seu destino judicial.

O projeto em contraste com o território

Componente do projetoContexto localConflito gerado
Cava a céu aberto, > 100 haCrista tombada pelo Iphan desde 1960Patrimônio paisagístico federal
Três bacias de sedimentoAdutora de abastecimento de BHRisco hídrico metropolitano
Operação em três turnosBairros do Taquaril e da zona sulRuído, poeira e vibração contínuos
Fluxo de caminhõesVias urbanas compartilhadasTrânsito pesado e segurança viária

Por que o projeto fracassou

  • A sobreposição com o tombamento federal de 1960, que levou o Iphan a retirar seu aval e a Justiça Federal a exigir anuência do instituto e do Ibama.
  • A mobilização sustentada da sociedade, que transformou riscos técnicos em questão pública incontornável.
  • O tombamento estadual em tramitação, que, mesmo travado por liminares, manteve a incerteza jurídica sobre o empreendimento.
  • A mudança do clima institucional pós-Brumadinho, que endureceu a análise de qualquer estrutura de contenção próxima a infraestrutura vital.
  • A decisão do STF de manter suspensas as licenças, consolidando a trégua em favor da serra.

O que o caso deixou de lição para as mineradoras

O episódio Tamisa tornou-se leitura obrigatória nos círculos de licenciamento de Minas Gerais. A mensagem é direta: projeto tecnicamente viável pode ser socialmente inviável, e a viabilidade social se mede cada vez mais cedo, não mais só depois da licença. Empresas que ignoram o contexto de patrimônio, água e identidade urbana de um território passaram a pagar o preço em anos de litígio.

Em 2026, a Tamisa permanece como referência do que não fazer na região metropolitana de Belo Horizonte. A área pretendida segue intacta, protegida por camadas de legislação e por uma comunidade que aprendeu a ler projetos de mineração. Para qualquer novo interessado no maciço, o recado da cidade está dado há anos: aqui, o pé não entra.