Tira o Pé da Minha SerraGeologia de bilhões de anos, nascentes que abastecem a cidad

Linha do tempo: os quatro anos que mudaram o debate

A Campanha · Tira o Pé da Minha Serra

A disputa pela Serra do Curral não foi um episódio, foi uma guerra de sete anos travada em gabinetes, audiências, conselhos e tribunais. Para quem chegou depois, ou para quem viveu tudo e perdeu o fio da meada em meio a tantos adiamentos e liminares, esta linha do tempo organiza os fatos essenciais, de 2018 até a consolidação da trégua judicial.

2018–2020: o projeto bate à porta

A Taquaril Mineração S.A., a Tamisa, apresenta ao estado o pedido de licenciamento de um complexo minerário na Serra do Curral, em área de Nova Lima colada ao limite de Belo Horizonte. O empreendimento, com mais de 100 hectares, é classificado como nível 6 de impacto ambiental, o máximo da escala, e exige EIA/RIMA. Moradores da região do Taquaril e técnicos ambientais começam a se articular diante do que descrevem como ameaça direta à saúde, à paisagem e à água da capital.

Nesse período, o dossiê de tombamento estadual da serra avança no Iepha, que conclui a análise técnica com parecer favorável à proteção. A bola passa, então, ao Conselho Estadual de Patrimônio, onde a votação começará a ser adiada repetidamente.

2021: a cidade acorda

Em agosto de 2021, um abaixo-assinado com mais de 72 mil assinaturas pedindo o tombamento integral da Serra do Curral é entregue à vereadora Duda Salabert e ganha a imprensa estadual. A campanha Tira o Pé da Minha Serra consolida-se nas redes e nas ruas, denunciando os três pontos centrais do projeto: poeira e detonações junto a bairros, fluxo de caminhões e, sobretudo, as três bacias de sedimento previstas sobre a adutora que abastecia cerca de 70% de Belo Horizonte.

O ano termina com o licenciamento avançando no estado e o tombamento paralisado, configuração que a campanha batizou de corrida contra o tempo: se a licença saísse antes da proteção, o estrago estaria contratado.

Megafone sobre mesa de madeira contra parede lisa
O megafone da mobilização funcionou por sete anos: da primeira denúncia às decisões do STF, a cidade não saiu da pauta.

2022: o ano de todas as decisões

DataFatoDesdobramento
29/04/2022Copam aprova a licença prévia da TamisaDerrota para a campanha; caso vai à Justiça
06/06/2022Decreto 17.986 cria o corredor ecológicoPrefeitura protege nascentes e conexão com o Espinhaço
2022Iphan retira o aval ao licenciamentoSobreposição com tombamento federal de 1960
2022Justiça Federal exige aval de Iphan e IbamaLicenciamento travado na esfera federal

2023–2024: a guerra das liminares

  • O tombamento estadual segue disputado: liminares obtidas pela mineradora esvaziam reuniões do Conep e a prefeitura recorre ao STF para destravar o processo.
  • O STF mantém suspensas as licenças da Tamisa, preservando o status quo da serra enquanto o mérito não é julgado.
  • A mobilização se reorganiza como vigília permanente, acompanhando cada movimentação processual.

2025: a operação que chacoalhou o licenciamento mineiro

Em setembro de 2025, a Polícia Federal deflagra a Operação Rejeito, que investiga um suposto esquema de fraudes e corrupção no licenciamento de mineração em Minas Gerais, com prisões ligadas à Agência Nacional de Mineração. A operação não mirava especificamente o caso da serra, mas jogou luz sobre as vulnerabilidades do sistema que a campanha denunciava desde 2021, incluindo a destruição por mineração ilegal de trechos do paredão verde do próprio maciço, revelada pela imprensa na esteira das investigações.

O que a linha do tempo ensina

Lida em sequência, a cronologia mostra um padrão: o licenciamento avançava na velocidade administrativa, e cada vitória da defesa da serra vinha de outra arena, o município, o patrimônio federal ou o Judiciário. Não houve um momento único de vitória, houve uma sucessão de trincheiras que, somadas, impediram o projeto de sair do papel.

Em 2026, o caso permanece tecnicamente aberto no Judiciário, mas o maciço segue protegido por uma combinação inédita: tombamento federal, corredor ecológico municipal e suspensão judicial das licenças. A linha do tempo não está fechada, e é exatamente por isso que ela precisa ser conhecida.