Tira o Pé da Minha Serra: como nasceu a campanha
Entre 2021 e 2022, uma frase curta tomou os muros, as redes e os debates de Belo Horizonte: "Tira o pé da minha serra!". Era o nome e o grito da campanha que se opôs ao projeto de mineração da Tamisa na Serra do Curral e que conseguiu o improvável: transformar um licenciamento aparentemente encaminhado numa derrota judicial para o empreendimento. Esta é a história de como uma cidade defendeu seu horizonte, contada com o distanciamento que os anos permitem.
O estopim: um projeto de nível 6 na crista da cidade
A Taquaril Mineração S.A., a Tamisa, tentava desde 2018 licenciar um complexo minerário de mais de 100 hectares na Serra do Curral, na divisa entre Belo Horizonte e Nova Lima. O projeto, classificado no nível máximo de impacto ambiental, previa operação em três turnos, fluxo intenso de caminhões e, o ponto mais explosivo, três bacias de sedimento sobre a adutora que abastecia cerca de 70% da capital. O licenciamento tramitava no estado, sob o governo de Romeu Zema, com parecer favorável do IEF mesmo após negativas de conselhos.
A campanha nasceu da constatação de que o processo avançava rápido demais e com pouca publicidade. Articulada por movimentos socioambientais, pesquisadores e moradores da zona sul, a iniciativa escolheu um nome que era uma ordem carinhosa: tirar o pé, no sentido de parar de pisar na serra, de não avançar mais um metro sobre o maciço.
A estratégia: dados na rua, emoção na técnica
O que distinguia a campanha era a combinação de linguagem popular e lastro técnico. Os materiais explicavam, em português direto, o que era uma bacia de sedimento, o que significava operar sobre uma adutora e o que dizia o dossiê de tombamento aprovado pelo Iepha e adiado no Conep. Ao mesmo tempo, a comunicação apelava para o que a cidade tinha de mais íntimo: a paisagem da janela, o cartão-postal, a memória afetiva de cada morador.
O momento de virada simbólica foi o abaixo-assinado com mais de 72 mil assinaturas, entregue em agosto de 2021 à então vereadora Duda Salabert, pedindo o tombamento integral da serra. O gesto provou que a pauta não era nicho: era maioria silenciosa que finalmente encontrava canal.

Os marcos da mobilização
| Período | Fato | Efeito |
|---|---|---|
| 2018–2020 | Tamisa inicia tentativas de licenciamento | Reação inicial de moradores e técnicos |
| Ago/2021 | Abaixo-assinado com 72 mil assinaturas | Tombamento vira pauta municipal |
| 2021–2022 | Campanha ocupa redes, mídia e audiências | Pressão sobre Copam e conselheiros |
| Abr/2022 | Copam aprova licença prévia | Derrota parcial, batalha segue na Justiça |
| Jun/2022 | Decreto 17.986 cria corredor ecológico | Vitória municipal concreta |
| 2022–2024 | Iphan retira aval; STF suspende licenças | Projeto travado definitivamente |
O que a campanha não foi
- Não foi movimento contra a mineração em geral: seu alvo era um projeto específico, num lugar específico, com riscos específicos.
- Não foi campanha partidária: agregou apoios de espectros políticos que raramente convergiam em BH.
- Não foi improviso: por trás das peças virais havia pareceres, dossiês e advogados ambientalistas.
- Não terminou em 2022: a vigília sobre novos capítulos do caso permaneceu nos anos seguintes.
O legado que ficou
A campanha Tira o Pé da Minha Serra não impediu sozinha o projeto: quem suspendeu as licenças foi o Judiciário, com base no tombamento federal de 1960 e na exigência de aval do Iphan e do Ibama. Mas foi a mobilização que colocou os fatos na mesa, sustentou a atenção pública por dois anos e criou as condições políticas para que o decreto do corredor ecológico fosse assinado em junho de 2022.
Em 2026, o nome sobrevive como patrimônio imaterial da cidade: referência em debates ambientais, estudo de caso em faculdades e lembrete de que paisagem também se defende com cartaz. A serra continua lá, intacta na crista. O pé, esse, a cidade aprendeu a vigiar.